REPENSANDO
A TERMINOLOGIA: "GINÁSTICA LABORAL"
Cleres Leonor Russo Amaral / CREFITO 3312-F
Márcia Barbosa De Lima / CREFITO 4547-F
Novembro/2003
APRESENTAÇÃO GERAL
A história de exercícios físicos do
trabalho vem nos mostrando idéias mal interpretadas
de terminologias, de entendimento e da forma de aplicação,
da intitulada atualmente: "Ginástica Laboral" (BARBOSA,
2000). Esta tem sido utilizada em larga escala nas empresas
há alguns anos. Com o surgimento dos programas de qualidade
de vida no trabalho esta prática invadiu a vida do trabalhador,
tornando-se, em algumas empresas, uma verdadeira prática
"epidêmica" no trabalho muitas vezes orientada por profissionais
sem conhecimento real da ergonomia.
A partir de reuniões da Câmara Técnica
de Ergonomia, do Conselho Regional de Fisioterapia e
Terapia Ocupacional, CREFITO-2, vimos à necessidade
de propor uma revisão e esclarecimento quanto à terminologia
e a aplicabilidade mais adequada a ser utilizada por
profissionais de fisioterapia e terapia ocupacional
nas empresas.
O objeto deste estudo baseia-se no
seguinte questionamento: "Qual a concepção ideológica
e terminológica mais adequada de Ginástica Laboral para
os profissionais de saúde"?
Desta forma, criou-se um elenco de
nomenclaturas que tendesse a melhor definição da atividade
de intervenção preventiva e curativa para os processos
patológicos relacionados ao trabalho. O escopo terminológico
foi CINESIOTERAPIA DESCOMPENSATÓRIA DO TRABALHO. Pois
acreditamos, que a prática desta ferramenta para os
profissionais de fisioterapia e terapia ocupacional
tem como base não a ginástica, definida como arte ou
ato de exercitar o corpo para fortificá-lo e dar-lhe
agilidade (Ferreira, 1986), mas sim, com os princípios
de movimentos terapêuticos tão bem definido pela ciência
que estuda o movimento de forma terapêutica, a cinesioterapia.
Pois esse corpo está em processo de adoecimento ou já
com danos estabelecidos. A terminologia descompensatória
baseia-se na definição de que um movimento compensatório,
isto é, quando o "movimento de uma ou mais articulações
em uma cadeia cinética estiver restrito, talvez por
uma fraqueza (fadiga) muscular ou por anomalias anatômicas,
as outras articulações na cadeia podem compensar alterando-se,
de forma que uma dada tarefa possa ser executada" (WATIKINS,
2001). Diante disto, a aplicabilidade dos movimentos
deve ser direcionada para o princípio da descompensação
e não como tem sido preconizado e entendido como compensação
de posturas e movimentos fatigantes do trabalho.
A fadiga no trabalho pode ser definida
como um estado de diminuição reversível da capacidade
funcional de um órgão, de um sistema ou do organismo
como um todo, provocado por sobrecarga no trabalho.
Essa sobrecarga pode ser de ordem física, cognitiva,
ou organizacional (COUTO, 1996). Ao comparar o nosso
corpo como uma máquina, podemos observar que ela possui
determinada capacidade de recuperação, que, se ultrapassada,
seja em freqüência e/ou em intensidade, dá sinais de
sobrecarga (compensação) diminuindo inicialmente seu
ritmo de funcionamento. Quando os sinais não são percebidos
ou são obnubilados pelas condições de trabalho (ritmo
e tempo), tendem a evoluir para lesões e disfunções
como a LER/DORT e as lombalgias ocupacionais.
HISTÓRICO
A Ginástica Laboral não é uma atividade
física recente. Há relatos deste tipo de atividade desde
1925, na Polônia, onde é chamada de Ginástica de Pausa
e destinada a operários. Neste mesmo período pesquisas
foram realizadas na Bulgária, Alemanha Oriental e na
Holanda. Na Rússia 150 mil empresas, envolvendo 5 milhões
de funcionários praticavam e ainda praticam a Ginástica
de Pausa, adaptada a cada cargo (CAÑETE apud POLITO
et. al, 2002).
Apesar de ter surgido na Polônia, o
seu desenvolvimento se deu em 1928 no Japão e perdura
até os dias de hoje. Segundo CAÑETE (1996 apud POLITO
et. al, 2002), esta pratica foi difundida por todo o
país, após a Segunda Guerra Mundial e, atualmente, um
terço dos trabalhadores exercitam-se diariamente, tendo
obtido como resultados, em 1960, a diminuição dos acidentes
de trabalho, o aumento da produtividade e a melhoria
do bem estar geral dos trabalhadores.
A transmissão do programa da Rádio
Taissô por pessoas especializadas, que consiste em um
tipo de ginástica rítmica, com exercícios específicos,
acompanhados por música própria, foi o responsável pela
grande propagação da "Ginástica Laboral" no Japão. O
programa é acompanhado não só da orientação de exercícios,
como também é acompanhado de palestras de curta duração
sobre assuntos relativos à saúde do trabalhador e a
produtividade.
No Brasil, mais especificamente, nos
estados São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso
do Sul a Federação da Rádio Taissô coordena mais de
5 mil praticantes da Ginástica laboral que chegou ao
país através de executivos nipônicos em 1969, nos estaleiros
Ishikvajima.
Em 1973, houve uma experiência pioneira
no país baseada em proposta elaborada pela Federação
de Estabelecimentos de Ensino Superior em Novo Hamburgo
- RS. Essa proposta, oriunda de uma experiência pioneira,
foi pautada em exercícios fundamentados em análise biomecânica
com objetivo de relaxamento da musculatura agônica pela
contração das antagônicas, dada a exigência funcional
unilateral. Para este tipo de programa de exercícios
físicos intitulou-se de "Educação Física Compensatória
e Recreação". Sua finalidade era esclarecer e nortear
a criação de centro de educação física junto às empresas.
Após cinco anos, a mesma Federação
juntamente com o SESI, adotaram o mesmo programa diferençando-o
do anterior de "Ginástica Laboral Compensatória", visando
aprofundar estudos nesta área ainda em caráter experimental,
para combater a chamada doença dos digitadores (tenosinovite).
Pois foi a primeira doença reconhecida legalmente em
1987, portaria n° 4602 do Ministério da Previdência
e Assistência Social, como doença profissional. (SATO
apud MONTEIRO apud POLITO, 2002). Como o objetivo do
estudo realizado pela Federação e o SESI, serem apenas
de estudo, e a mentalidade da época não favorecia a
implantação deste tipo de trabalho, assim como resultados
que dessem base para a implementação do programa em
outras empresas, levando a "Ginástica Laboral" a entrar
no esquecimento por um longo período.
Começa a ser resgatada na década de
80 e na década seguinte, ressurgindo atualmente como
"febre" nas empresas no combate do stress e das lesões
do trabalho.
CONCLUSÃO
Diante do exposto, esta Câmara Técnica
vem propor o abandono de uma idéia retrograda sem consistência
e obscura tanto da utilização quanto limitação que a
"Ginástica Laboral" se propõem atualmente. A começar
pela mudança de terminologia para CINSEIOTERAPIA DESCOMPENSATÓRIA
DO TRABALHO, termo mais abrangente e ao mesmo tempo
específico dos profissionais da saúde que lidam com
as patologias do trabalho. Essa deve ser entendida como
uma ferramenta de cunho preventivo e curativo que deve
ser utilizada por tão somente, por profissionais qualificados.
A demanda empresarial atualmente, é enorme, podendo
colaborar para o aumento do risco de profissionais não
qualificados utilizarem de maneira inadequada essa ferramenta,
na ação entre "aplicar demais e entender de menos".
Isso leva a alimentar o engodo das empresas que acreditam
resolverem uma problemática complexa que envolve a saúde
no trabalho apenas com o empobrecido significado de
"Ginástica Laboral".
BIBLIOGRAFIA
BARBOSA, L, G. "A ginástica laboral na prevenção da
LER?DORT. Solução ou paleativo", ABERGO 2000.
COUTO, H, A. "Ergonomia aplicada ao trabalho - o manual
técnico da máquina humana". Belo Horizonte; Ergo editora;
1996.
FERREIRA, A, B, H. "Novo dicionário da língua portuguesa".
Rio de Janeiro, Nova fronteira, 1986.
POLITO, E; & BERGAMASCHI, E, C. "Ginástica Laboral
- teoria e prática"; Rio de Janeiro, Sprint, 2002.
WATIKINS, J. "Estrutura e função do sistema musculoesquelético";
Porto Alegre, Artmed, 2001. |