Terceira idade exige cuidado multidisciplinar
A população no mundo está ficando cada vez mais velha e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), por volta de 2025, pela primeira vez na história, haverá mais idosos do que crianças no planeta.

O Brasil, que já foi celebrado como o país dos jovens, tem hoje cerca de 13,5 milhões de idosos, que representam 8% de sua população. Em 20 anos, o país será o sexto no mundo com o maior número de pessoas idosas. O dado serve de alerta para que o governo e a sociedade se preparem para essa nova realidade não tão distante.

O avanço da medicina e a melhora na qualidade de vida são as principais razões dessa elevação da expectativa de vida em todo o mundo. Apesar disso, ainda há muita desinformação sobre as particularidades do envelhecimento e o que é pior: muito preconceito e desrespeito em relação às pessoas da terceira idade, principalmente nos países pobres ou em desenvolvimento.

Em entrevista, dois profissionais do Centro para Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Desordens Mentais na Velhice (CDA), do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, mostram a importância do trabalho de Fisioterapeutas e de Terapeutas Ocupacionais no tratamento dessas doenças, que atingem uma parcela cada vez maior da população brasileira.

Psiquiatra e doutor em Medicina e Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Dr. Jerson Laks é, desde 1998, Coordenador Clínico do CDA, e desde 2003 acumula também o cargo de Coordenador Geral do Centro.

No Instituto, considerado pela OMS como centro de excelência no tratamento de doenças mentais, Dr. Laks oferece, junto com sua equipe, atendimento multidisciplinar voltado para idosos acima de 60 anos com qualquer problema de ordem psicológica, psiquiátrica e neuropsiquiátrica, e que apresentem quadros de demência, depressão, ansiedade e psicoses.

 


Já a Terapeuta Ocupacional, Dra. Fortunée Nigri, que participa do CDA desde 1999, quando foi aluna do Curso de Especialização em Psicogeriatria, passando depois ao cargo de técnica do Centro, coordena, desde 2003, as Oficinas Terapêuticas do Centro-Dia do CDA, onde os pacientes em tratamento passam as tardes em oficinas que fazem parte de um programa de estimulação cognitiva, e seus familiares e cuidadores participam de grupos de apoio, orientação e cuidados.







CREFITO-2
: Quais são as doenças mentais mais comuns apresentadas por idosos?

Dr. Laks: Sem dúvida, as doenças mais prevalentes são a demência e a depressão. Entre as demências, a Doença de Alzheimer responde por até 60% dos casos, seguida por outras doenças neurodegenerativas, como a Demência por Corpos de Lewy e a Demência Fronto-Temporal, e pelas Demências Vasculares.
A depressão atinge também altos índices de ocorrência, não apenas como doença isolada, mas também em co-morbidade com doenças clínicas, tão comuns em indivíduos idosos, como o hipotiroidismo e a hipertensão arterial.

CREFITO-2: Quais as principais causas dessas doenças?

Dr. Laks: Aproximadamente 15% a 20% dos quadros de demências se devem a causas médicas potencialmente reversíveis, tais como hipotiroidismo, hipovitaminose B12, entre outras. O estresse do dia-a-dia é outro fator que pode deflagrar doenças em geral.

CREFITO-2: Quais os tratamentos mais utilizados nestes casos?

Dr. Laks: A Doença de Alzheimer e outras formas de demência contam hoje com medicamentos (anticolinesterásicos para as fases leve e moderada e também memantina, para a forma moderada a grave) e uma série de intervenções não-medicamentosas para incentivar a independência nas atividades de vida diária, diminuir o impacto dos problemas de comportamento e também diminuir o desgaste de quem cuida do doente. O mesmo se pode dizer para o tratamento da depressão no idoso, de um modo geral.

CREFITO-2: Como se pode identificar um idoso com doença mental?

Dr. Laks: A família é, em geral, a primeira a notar alterações de comportamento e de memória nos quadros demenciais. Na depressão, os pacientes se queixam mais e podem então informar melhor o seu próprio quadro.
No entanto, é comum encontrarmos pacientes com depressão com mais mutismo e apatia, sem muitas queixas, o que pode complicar a procura por tratamento e ajuda.

CREFITO-2: Existe prevenção para estes tipos de doença?

Dr. Laks: Ainda não estão bem delimitadas as formas de prevenção para a demência e nem para a depressão no idoso. No entanto, alguns estudos mostram fatores de risco que podem ser controlados, tais como os fatores de risco vascular, a falta de exercí- cios e da manutenção de atividades diárias.

CREFITO-2: Quantos idosos, em média, procuram o CDA?

Dr. Laks: Temos uma média de procura de 20 novos casos por semana. Novas consultas estão sendo agendadas só para fevereiro de 2006, o que demonstra a grande demanda reprimida no Rio de Janeiro, como, de resto, em todo o Brasil. No entanto, ainda estamos conseguindo atender tal demanda.

CREFITO-2: Em que casos de doenças mentais em idosos a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional são mais indicadas?

Dra. Fortunée: No CDA, são a Doença de Alzheimer, a Doença de Parkinson, Depressão, Demências Vasculares e outras demências.

CREFITO-2: Como o Terapeuta Organizacional contribui no tratamento desses idosos?

Dra. Fortunée: Nosso trabalho visa oferecer independência e autonomia aos idosos com doenças mentais, enfatizando a socialização e o desempenho de funções como vestir-se, alimentar-se e locomover-se. Dessa forma, sua dignidade é resgatada e o desgaste dos cuidadores, reduzido.

CREFITO-2: Que tipos de oficinas são oferecidas no Centro-Dia?

Dra. Fortunée: Existem quatro eixos principais de oficinas: estimulação e realização de tarefas diárias, com as oficinas de culinária e da beleza; de estimulação das funções cognitivas, com as oficinas da memória, da expressão, de jogos e de notícias; estimulação das habilidades sensório-motoras, formada pelas oficinas do movimento e da respiração, e promoção e resgate das reminiscências e identidade, onde os pacientes participam das oficinas de conversa, de memória, da expressão, entre outras. As oficinas atendem de 7 a 10 pacientes.

CREFITO-2: Como funcionam essas oficinas?

Dra. Fortunée: Os idosos marcam uma consulta médica no CDA, são atendidos, avaliados e encaminhados ao Centro-Dia, apenas se apresentarem um estágio leve a moderado de Doença de Alzheimer ou demência vascular, por terem maior possibilidade de se beneficiarem com as atividades. No Centro-Dia, eles passam por uma avaliação conjunta realizada por um Fisioterapeuta, por um Terapeuta Ocupacional e por um Psicólogo, que analisam todo o histórico de vida do paciente, levando em conta suas habilidades e funções cognitivas preservadas.
Eles são indicados para as oficinas conforme seu perfil, interesse e estágio da doença.

CREFITO-2: Quantos pacientes o Centro-Dia atende atualmente?

Dra. Fortunée: As oficinas atendem atualmente 35 pacientes e seus respectivos familiares e cuidadores, que vão ao Centro no mínimo uma e no máximo três vezes por semana.

CREFITO-2: Como é formada a equipe de profissionais do Centro?

Dra. Fortunée: Atualmente, temos três profissionais Fisioterapeutas e um Terapeuta Ocupacional, que trabalham em conjunto com uma equipe de 15 a 20 alunos do Curso de Especialização em Psicogeriatria. O curso é uma excelente oportunidade de especialização gratuita a profissionais de Fisioterapia, de Terapia Ocupacional, Enfermagem, Medicina, Musicoterapia, Serviço Social e Psicologia. A duração do curso é de dois anos, com carga horária de 2.500 horas e início sempre no mês de março de cada ano. As inscrições podem ser feitas nos meses de setembro e novembro na Secretaria Acadêmica do IPUB, na Avenida Venceslau Brás, 71, fundos, em Botafogo. Os interessados podem obter mais informações pelo telefone 2275-1122.