Crônica
Para bom entendedor...
Dra. Solange Canavarro
Era preciso fazer um bolo para o lanche das crianças. Dona Maria, doceira de mão cheia, separou os ingredientes e os colocou sobre a mesa.
Quando se viram a sós, os ingredientes começaram a discutir. A farinha, toda empoada, começou logo dizendo que era preciso organizar aquela coisa toda, que assim não era possível e que ela, na qualidade de farinha, por ser, de todos os ingredientes, o mais importante para a confecção do bolo, iria supervisionar a participação de cada um.
Não é preciso nem dizer que ficaram todos ofendidos e que foi uma gritaria geral. Afinal, com que direito a farinha pretendia opinar sobre como o açúcar deveria adoçar ou sobre como faria o fermento para a massa crescer... Um pouco exaltados, os ingredientes questionaram tal impropriedade. As claras se recusariam a ficar em neve caso a farinha se intrometesse. O leite, mais violento, ameaçou empelotar toda a farinha se esta ousasse meter o bedelho onde não fosse chamada. Talvez por ser mais doce, o açúcar resolveu tentar caminhos mais diplomáticos para resolver esta questão. Assim, falou o seguinte:
– Dona farinha, nenhum de nós ignora sua importância na confecção do bolo, mas pense um pouco, como seria um bolo sem nós?
Ao que a farinha prontamente respondeu:
– Claro que os senhores têm que estar presentes no bolo, apenas estou pleiteando supervisionar a participação de vocês para que tudo fique perfeito, afinal sou a mais qualificada para isso!
– O que a faz pensar assim? – perguntou a manteiga, um pouco irritada.
– Ora, companheiros, todos sabem quão difícil é o processo de se formar farinha! É preciso muito tempo e sacrifício para que do trigo eu possa surgir!
Incrédulo, o açúcar respondeu:
– Francamente dona farinha! A senhora sempre foi farinha e portanto nunca soube como é ser ovo ou manteiga. Todos nós aqui presentes passamos por processos diferentes para estar aqui! E o processo pelo qual passamos foi o que nos tornou o que somos... nem melhores, nem piores... diferentes uns dos outros!!! Essa diferença é que vai fazer o bolo ficar gostoso!
Mais calmo, o leite acrescentou:
– Além disso, dona farinha, a senhora que foi criada para dar consistência à massa, o que entenderia de fazê-la crescer? Ou de deixá-la leve? Ou de adoçar-lhe o gosto? Não podemos contrariar a natureza do processo que nos formou! Essa natureza faz de nós todos, figuras indispensáveis. Pense bem, dona farinha. Por que essa ganância? Que importância isso tem? No final, importante mesmo vai ser alimentar as crianças!
A farinha, inconformada, ameaçou responder, mas já era tarde demais. Dona Maria aproximava-se para fazer o bolo. Como sempre, os ingredientes deram o melhor de si. A farinha, por sua vez, estava meio aborrecida e resolveu não colaborar... fazer corpo mole mesmo! E daí, como se pode prever, o bolo solou!
Dona Maria não conseguia entender o que havia acontecido... tantos anos na cozinha! Como se justifica isso? “As crianças vão ficar inconsoláveis!!!! E agora?” A doceira, que de boba não tinha nada, viu logo que tinha algo errado, procurou, procurou e enfim achou o motivo do desastre gastronômico – a farinha estava fora da validade!
Por isso, caro leitor, preste bem atenção: cuidado para não usar farinha velha na confecção de um bolo!!! Isso pode estragar tudo. Assim é com as pessoas: quando presas a conceitos antigos, podem estragar todas as tentativas de se construir algo de bom... o PL 25/2002 é apenas um exemplo disso!
Nota da Redação: Dra. Solange Canavarro é Fisioterapeuta e Conselheira do CREFITO-2