Crônica
É fácil falar de mim, difícil é ser eu
Dra. Solange Canavarro
Um dia eu estava atendendo um velhinho daqueles bem demenciados, que não falam coisa com coisa. Acontece que o velhinho estava com pneumonia e precisava sentar fora do leito. Eu, após examiná-lo, coloquei-o na beira do leito e o sentei numa poltrona. O tal velhinho pôs-se a gritar e a me xingar de nomes impublicáveis. Apesar disso, insisti em mantê-lo sentado porque sabia que era para o bem dele. Mais do que isso: sabia que se ele pudesse entender o bem que tal procedimento lhe faria, também colaboraria. Apesar de todos os xingamentos e de toda a sua revolta contra mim, meu dever era para com o seu bem-estar e não com a minha vaidade pessoal. Quem de nós nunca esteve numa situação dessas? São coisas da profissão. Muitas vezes temos que nos esquecer de nós mesmos e fazer o bem àqueles que bradam contra nós. São coisas da vida, temos que honrar os compromissos que assumimos.
Se aquele velhinho soubesse o esforço que eu estava fazendo para colocá-lo sentado talvez me agradecesse, mas não podemos fazer as coisas esperando a gratidão alheia. Trata-se, mais do que tudo, de seguir nossa consciência. Também tem sido assim algumas vezes durante a gestão deste Conselho. Quantas coisas boas foram feitas durante estes quatro anos! Quantas mudanças! Mas também erramos com certeza, pois somos humanos. Mas só erra quem tenta. Quem fica em casa refestelado no sofá pode se dar ao luxo de apenas falar mal do outro sem se expor. Mas não temos escolha: temos que colocar o velhinho sentado mesmo que ele tente nos bater (aconselho a aprender algumas técnicas de defesa pessoal para se esquivar dos socos). Como seria bom que todo o bem que fazemos aos nossos pacientes fosse reconhecido por eles, não é mesmo? Mas sabemos que a vida não é assim. Muitas vezes nem nos agradecem e em outras ainda nos agridem. Mas não podemos deixar pra lá, pois é a vida do velhinho que está em jogo. Então, vovô, desculpe lá, mas tenho que sentá-lo!
Uma grande amiga minha está prestes a assumir uma difícil empreitada que poderá mudar os rumos da Fisioterapia no Rio de Janeiro. Trata-se de uma tarefa muito difícil e há chances de ela não conseguir. No entanto, já começaram a murmurar contra ela apenas por ter aceitado o desafio. Ela me procurou angustiada, preocupada com os comentários, não queria que seu nome ficasse por aí zanzando de boca em boca, afinal, ela sempre foi uma profissional respeitada e nunca seu nome havia sido tão falado. Eu me solidarizei com ela, pois sei que é difícil ficar à frente de um projeto transformador. Quem faz a diferença se expõe, dá a cara a tapa. E talvez isso seja a parte mais difícil do desafio. Mas os grandes líderes são assim forjados!
Pra terminar... Na minha última crônica dividi com vocês, queridos leitores, minha apreensão de ter deixado de dizer algo importante neste espaço. No entanto, a nova gestão do CREFITO-2 gentilmente me permitiu continuar a contar minhas histórias aqui. Portanto, o título desta crônica deveria ser: “A volta dos que não foram” (risos).
E, como moral da história, saibam que não adianta ficar com raiva do velhinho, pois ele não sabe o que faz. Temos que cumprir nosso dever com amor e humildade. No entanto, àqueles que quiserem nos ajudar a colocá-lo sentado, saibam que toda ajuda é bem-vinda.
Paz e bem para todos!